A química das expectativas

A seguinte temática deriva de ideias surgidas durante os atendimentos a respeito das expectativas e concepções que temos acerca dos outros dentro da nossa realidade. Quando nos deparamos com as relações humanas, percebemos uma grande mistura química, como um experimento laboratorial: o que acontece quando uma pessoa tem uma relação com a outra? Nesse sentido, sabemos que alguns compostos não se misturam, por exemplo, água e óleo. Sabemos que existem algumas pessoas com quem nossa relação seria exatamente como esse experimento. Não haveria troca nem relação, como água e óleo, não nos misturaríamos em absolutamente nada. Por outro lado, também há alguns experimentos que resultam em grandes misturas tóxicas ou explosivas. Dependendo da fórmula, temperatura, tempo de contato e de tudo aquilo que é avaliado dentro da química, sabemos que o resultado final pode ser afetado. Conceitos como esses também podem ser analisados dentro das interações humanas.

Quando analisamos as interações humanas dessa forma, percebemos que, antes de avaliarmos um resultado, temos que saber que tipo de substâncias estão se misturando nesse experimento social. Se, por exemplo, analisarmos alguém que possui plena convicção de seus conceitos políticos, considerando-os sólidos, imutáveis e corretos, podemos esperar uma reação explosiva caso essa pessoa se depare com alguém que tenha divergências nesse sentido. Claro, serão analisados os contextos desse experimento, como o local em que se conheceram, o momento político que estão vivendo e como cada um lida com essas divergências, podendo ser em tons maduros e respeitosos ou infantis e provocativos. Todos esses fatores, no final, afetarão a mistura resultante desse experimento.

Na química, entretanto, não são apenas as substâncias que determinam aquilo que acontecerá. As condições em que essa mistura ocorre também interferem diretamente no resultado. Podemos pensar na temperatura, por exemplo, como as condições emocionais em que determinada interação acontece. Uma conversa entre duas pessoas tranquilas pode ter um resultado completamente diferente daquela mesma conversa após um dia estressante, durante um momento de raiva, medo, insegurança ou cansaço. Não necessariamente as pessoas mudaram, mas a temperatura daquele experimento estava diferente. Existem assuntos que conseguimos discutir quando estamos emocionalmente tranquilos, mas que podem se tornar explosivos quando nossa temperatura emocional já está elevada.

Podemos pensar também na concentração. Na química, a quantidade de determinada substância presente em uma mistura interfere diretamente em suas características e em suas possíveis reações. Nas relações humanas acontece algo semelhante. Uma crítica pontual pode ser suportável e até importante, enquanto uma relação marcada constantemente por críticas pode modificar completamente a maneira como uma pessoa se comporta diante da outra. Uma pequena cobrança pode não gerar grandes consequências, mas sua repetição diária aumenta sua concentração dentro daquela relação. O mesmo acontece com carinho, atenção, desconfiança, ciúmes, irritação, cuidado ou qualquer outro elemento que colocamos constantemente nas nossas relações. Não devemos analisar apenas aquilo que existe, mas também quanto daquilo existe.

Outro conceito interessante é o de equilíbrio químico. Algumas relações parecem encontrar determinada estabilidade através da maneira como seus elementos interagem. Cada pessoa ocupa determinado espaço, existem limites estabelecidos, formas conhecidas de comunicação e maneiras de lidar com conflitos. Entretanto, quando um dos elementos dessa relação se modifica, todo o equilíbrio pode precisar ser reorganizado. Uma pessoa que sempre concordou começa a dizer não; alguém que evitava conflitos começa a expressar aquilo que pensa; uma pessoa extremamente disponível começa a estabelecer limites. Curiosamente, uma mudança saudável para um dos indivíduos pode inicialmente gerar desconforto na relação, justamente porque modifica um equilíbrio que uma vez foi estabelecido.

Sabendo dessa infinidade de possibilidades e riscos que as relações interpessoais carregam, como podemos nos comportar melhor e mais seguros nesse mundo laboratorial em que vivemos? Para essa pergunta, a forma mais eficaz que considero nesse contexto é o autoconhecimento. Quando percebemos que o autoconhecimento se volta para nós mesmos, já estamos diante de uma mudança importante de perspectiva. Em vez de tentarmos prever, controlar ou modificar constantemente a reação do outro, começamos a compreender melhor qual substância nós mesmos estamos colocando nessa mistura. Quais são as nossas características? O que nos torna reativos? Com quais pessoas conseguimos estabelecer boas trocas e quais características do outro parecem despertar em nós reações explosivas e incontroláveis?

Talvez um dos maiores problemas das expectativas esteja justamente em conhecer determinada substância e, ainda assim, esperar dela uma reação completamente diferente. Se sabemos que uma pessoa costuma reagir de maneira agressiva quando é contrariada, por que continuamos esperando que, na próxima discussão, ela responda exatamente como gostaríamos? Poderíamos reverter a pergunta em busca do autoconhecimento da seguinte maneira: por que eu sinto que devo corrigir aquela pessoa e a reação dela, mesmo sabendo que ela não gosta de ser contrariada? Utilizando a famosa frase atribuída a Albert Einstein: “Loucura é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”

Isso não significa determinar que as pessoas são imutáveis. Diferentemente das substâncias químicas, seres humanos possuem consciência, história, capacidade de reflexão e transformação. Porém, enquanto nenhuma dessas variáveis se modifica, precisamos considerar aquilo que a realidade já mostrou e, infelizmente, lidar com nossas expectativas quebradas. A expectativa se torna perigosa e dolorosa quando deixa de considerar o outro como ele é e passa a se sustentar nos desejos de como gostaríamos que ele fosse.

Nesse sentido, conhecer a si mesmo também significa reconhecer nossas próprias expectativas. Às vezes, sofremos não apenas pela reação que recebemos, mas pela distância existente entre a reação real e aquela que havíamos idealizado. Criamos mentalmente o resultado do experimento antes mesmo de realizá-lo e, quando a realidade não corresponde à nossa previsão, culpamos os elementos envolvidos. É então que, justamente, a expectativa e a realidade se distanciam: não estamos necessariamente decepcionados com aquilo que o outro fez, mas com aquilo que esperávamos que ele fizesse.

Por isso, conhecer a nossa própria composição também significa compreender quais expectativas carregamos para dentro das relações. Se sabemos que determinada situação desperta insegurança, ciúmes, raiva ou necessidade de aprovação, essa informação nos ajuda a entender nossa participação no experimento. É de suma importância compreender que o autoconhecimento não nos torna imunes às reações, mas permite reconhecer com maior clareza aquilo que estamos adicionando à mistura antes de responsabilizarmos exclusivamente o outro pelo resultado.

Portanto, amadurecer nas relações envolve justamente aprender que não controlamos todas as reações, mas podemos conhecer melhor a complexidade dos nossos elementos, que colocamos em contato quando estamos diante de alguma pessoa também complexa e variável. Podemos compreender nossas características, observar as características do outro, reconhecer a temperatura emocional daquele momento, perceber aquilo que está se tornando concentrado demais e avaliar o equilíbrio que construímos naquela relação. E, principalmente, podemos decidir em quais experimentos vale a pena continuar insistindo e em quais deles esperar um resultado diferente significa apenas repetir a mesma fórmula, esperando que, dessa vez, a química seja outra.

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