“É no Patológico, com letra maiúscula, que se decifra o ensinamento da saúde, de certo modo assim como Platão procurava nas instituições do Estado o equivalente, ampliado e mais facilmente legível, das virtudes e vícios da alma individual.” (CANGUILHEM, 2011, p. 16).
A oportunidade de saúde referenciada pelo filósofo e médico francês Georges Canguilhem ao citar a medicina grega e os conceitos hipocráticos, parece ter sido deixada de lado no mundo contemporâneo. Para ele, a natureza, seja no homem ou fora dele, está relacionada à harmonia e ao equilíbrio; dessa forma, as perturbações podem gerar desequilíbrios que se manifestam na doença. A partir dessa visão, pode-se compreender que a doença não está simplesmente localizada em uma parte do homem, mas diz respeito ao organismo em sua totalidade e à maneira como ele se relaciona com o meio.
Canguilhem afirma, ainda, que as perturbações não são necessariamente causas, mas ocasiões nas quais a doença aparece, sobretudo, como um esforço da própria natureza para encontrar uma nova organização. Nesse sentido, escreve: “A técnica médica imita a ação médica natural (vis medicatrix naturae)” (CANGUILHEM, 2011, p. 19). A doença deixa, então, de representar somente aquilo que precisa ser eliminado e passa também a revelar algo sobre o organismo, seus limites e suas tentativas de restabelecimento.
Nos tempos modernos, porém, as doenças parecem assumir, em certos discursos, um papel semelhante ao que as possessões demoníacas ocupavam em outros períodos: tornam-se entidades que nos invadem, perturbam um suposto equilíbrio saudável e, por isso, precisam ser expulsas. Evidentemente, não se trata de negar a existência das doenças nem a importância dos tratamentos médicos. O problema aparece quando passamos a compreender toda manifestação patológica exclusivamente como um invasor estranho ao indivíduo, deixando de perguntar o que aquela condição também revela sobre a pessoa, seu organismo, seus hábitos, sua história e sua relação com o mundo.
O processo de medicalização contribuiu para uma importante transformação dessa relação. Experiências que anteriormente poderiam ser compreendidas a partir de diferentes dimensões da existência passaram, cada vez mais, a ser interpretadas também pela ótica médica orgânica. O sofrimento ganha um nome, o nome encontra uma classificação e a classificação frequentemente conduz à busca por um tratamento. Esse movimento trouxe benefícios inegáveis para inúmeras pessoas, mas também criou um risco: acreditar que nomear aquilo que sentimos significa necessariamente compreendêlo.
O diagnóstico, nesse contexto, pode deixar de funcionar somente como uma ferramenta clínica e passar a ocupar um lugar central na identidade daquele que sofre. A pergunta “o que está acontecendo comigo?” se torna “qual transtorno eu tenho?”. Existe uma diferença importante entre essas duas perguntas. A primeira mantém aberta uma investigação sobre a vida; a segunda pode procurar uma categoria capaz de encerrar essa investigação. O diagnóstico pode orientar e organizar o tratamento, mas se torna limitado quando passa a se tornar um roteiro para todos os indivíduos.
O próprio papel do médico também pode sofrer os efeitos dessa transformação. Diante da necessidade de reconhecer sintomas, estabelecer critérios e definir tratamentos, existe o risco de que o encontro entre médico e paciente se torne predominantemente classificatório. A pessoa apresenta determinados sinais, esses sinais são comparados a critérios previamente estabelecidos e, a partir deles, chega-se a uma categoria diagnóstica. A classificação é necessária à medicina, mas Canguilhem nos permite questionar a aplicação abstrata dos conceitos de normal e patológico a cada indivíduo, evitando que essas categorias sejam tomadas como definições absolutas da experiência humana. É justamente nesse movimento de questionamento a conceitos solidificados que podemos compreender a importância que o autor atribui à filosofia, se debruçando sobre à definição de Léon Brunschvicg: “A filosofia é a ciência dos problemas resolvidos.” (BRUNSCHVICG apud CANGUILHEM, 2011, p. 15).
Paralelamente, não podemos ignorar que a saúde também se tornou um gigantesco mercado. A indústria farmacêutica participa de uma estrutura econômica que movimenta enormes quantidades de dinheiro e depende, como qualquer indústria, da comercialização de seus produtos. Isso não significa reduzir os medicamentos a algo negativo ou desnecessário — muitos deles transformaram radicalmente a história da medicina e continuam sendo indispensáveis. A questão está em perceber que, quando sofrimento, diagnóstico e mercado se encontram, interesses terapêuticos e econômicos podem coexistir. Por isso, torna-se ainda mais importante preservar uma visão crítica sobre aquilo que transformamos em doença e sobre aquilo que esperamos resolver exclusivamente por meio de medicamentos.
A promessa contemporânea se apresenta de forma prática e sedutora: para cada desconforto, uma explicação; para cada explicação, um diagnóstico; para cada diagnóstico, uma intervenção. Aos poucos, passamos a perder a capacidade de permanecer diante daquilo que nos perturba tempo suficiente para perguntar o que essa perturbação está tentando revelar, enfatizando ainda mais o caráter imediatista e impaciente do mundo moderno. Nem todo sofrimento deve ser simplesmente suportado, assim como nem todo sofrimento precisa imediatamente ser silenciado. Entre esses dois extremos existe um espaço individual e natural de cada ser humano.
Na prática clínica percebo que a ordem das pergunta sempre se inicia com “como faço isso parar?” antes de “o que isso está revelando?”. A primeira pergunta é necessária e, em muitos casos, urgente. Mas, quando ela existe sozinha, corremos o risco de transformar todo sintoma em inimigo, e toda doença em algo completamente estrangeiro a nós mesmos, ignorando a totalidade em volta de todo esse contexto. O patológico deixa, então, de ser uma experiência a ser compreendida e passa a ser apenas um defeito a ser removido.
O objetivo desse artigo é a retomada a essa dimensão da saúde, algo completamente diferente de romantizar doença, rejeitar diagnósticos ou abandonar medicamentos. É nesse sentido que a doença pode voltar a ser uma oportunidade de saúde: não porque adoecer seja desejável, mas porque aquilo que rompe nosso equilíbrio também pode revelar de que maneira estávamos vivendo, quais eram nossos limites e que novas formas de existência precisarão ser construídas a partir dali.
Referências Bibliográficas
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.