Essa temática, tão presente em meus atendimentos clínicos, motivou a escrita deste artigo. Ao observar o sofrimento de muitos homens, percebo, com frequência, que as ideias de merecimento e justiça parecem governar seu mundo psíquico. Um exemplo comum é o do homem que vincula todo o seu valor pessoal ao sucesso financeiro. Quando enfrenta dificuldades econômicas, passa a considerar seu sofrimento emocional como algo justo e até esperado. Dessa forma, explosões de raiva, insônia, crises de ansiedade ou pânico deixam de ser vistos como sinais de que algo precisa ser cuidado e passam a ser interpretados apenas como uma consequência lógica da “falta de dinheiro”. O sofrimento, em vez de despertar compaixão por si mesmo, é tratado como uma dívida que precisa ser paga.
Outros conceitos ajudam a contextualizar a masculinidade construída dentro das normas de socialização do comportamento masculino. Nessa perspectiva, homens não podem ser vulneráveis, e sentimentos como medo, tristeza e ansiedade podem ser interpretados como sinais de fraqueza. Trata-se daquela visão dual e polarizada em que os homens são associados a Marte, deus da guerra — durões e resolvedores de problemas —, enquanto as mulheres são associadas a Vênus, deusa do amor — emocionais e acolhedoras. Essa forma de socialização masculina exclui ou desencoraja comportamentos considerados femininos.
Dentro da clínica, percebi o quanto essa cultura masculina pode produzir adoecimento e ignorância do homem em relação ao seu próprio mundo interno. Ao aprender que determinadas emoções não devem existir, muitos homens deixam de reconhecê-las em si mesmos. Assim, não apenas se afastam das outras pessoas, mas também da própria experiência emocional, tornando-se incapazes de compreender aquilo que sentem e, consequentemente, de cuidar do próprio sofrimento.
Buscando compreender esse fenômeno, encontrei as contribuições de Ronald F. Levant, expresidente da American Psychological Association (APA), que propôs o conceito de Alexitimia Masculina Normativa (Normative Male Alexithymia). Diferentemente da alexitimia clínica, que consiste em uma dificuldade persistente para identificar e nomear emoções, Levant argumenta que muitos homens desenvolvem essa limitação como resultado da própria socialização masculina. É como se alguém passasse a vida inteira aprendendo a dirigir um carro olhando apenas para o velocímetro, sem jamais observar o painel que indica falta de combustível, superaquecimento ou falhas no motor. O veículo continua funcionando por algum tempo, mas os sinais de alerta são ignorados até que o sistema entre em colapso.
Da mesma forma, muitos homens aprendem, desde cedo, a reconhecer apenas aquilo que podem resolver por meio da ação — trabalhar mais, produzir mais, ganhar mais dinheiro —, enquanto emoções como medo, tristeza, vergonha ou sensação de fracasso permanecem sem nome e sem espaço para existir. Assim, quando perguntados sobre o que sentem, respondem com fatos, metas ou problemas objetivos, e não com emoções. Não porque lhes faltem sentimentos, mas porque lhes faltou autorização para conhecê-los.
Nesse contexto, o isolamento emocional deixa de ser apenas a ausência de diálogo com os outros e passa a representar um rompimento do homem com o próprio mundo interno. É justamente essa desconexão que faz com que muitos interpretem o sofrimento não como um pedido de cuidado, mas como algo que acreditam merecer suportar. Esse cenário pode não ser somente de reclusão social, mas de reclusão em si mesmo. Na psicologia junguiana, o conceito de Self representa a totalidade psíquica individual, o organizador que levará o pequeno ego ao seu desenvolvimento. Quando isso é observado na prática clínica, notamos um homem que se fecha para os chamados do Self, retraindo-se, culpando-se, sobrecarregando-se e, muitas vezes, desistindo.
Quando os feitos se tornam o único meio de um homem existir no mundo, o que lhe resta são apenas ações. Como consequência, o amor, o reconhecimento e até o próprio valor passam a ser tratados como conquistas que precisam ser constantemente alcançadas, nunca como algo inerente à sua existência. Nessa lógica, descansar parece preguiça, pedir ajuda parece fraqueza e sofrer torna-se quase uma obrigação moral diante daquilo que ainda não foi conquistado.
Ronald F. Levant argumenta que muitos homens são socializados em uma cultura que restringe a expressão das emoções consideradas vulneráveis, favorecendo uma forma normativa de alexitimia. Em vez de reconhecer e comunicar tristeza, medo ou vergonha, aprendem a substituí-las por desempenho, silêncio e ação. Sob essa perspectiva, o isolamento emocional não nasce da ausência de sentimentos, mas da ausência de uma linguagem que permita reconhecê-los e compartilhá-los. É justamente nesse vazio emocional que o sofrimento deixa de ser compreendido como um chamado do Self ao autocuidado e passa a ser interpretado como o preço inevitável e justo por ainda não corresponder ao ideal masculino de sucesso.
Referências:
LEVANT, Ronald F. Toward the reconstruction of masculinity. Journal of Family Psychology, Washington, DC, v. 10, n. 3, p. 259–269, 1996.
JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.