Expectativas: Por que elas surgem mesmo que não as controlamos

Você manda uma mensagem,

esperando determinada resposta.

Inicia um relacionamento imaginando como ele vai ser.

Entra em um emprego esperando uma promoção rapidamente.

Planeja um final de semana e espera que seja tão divertido e bom como imaginou.

De repente, algo que contraria esses planos acontece: alguma atitude, acontecimento ou situação. Nesses momentos, você se vê frustrado, não só pela situação, mas pela expectativa quebrada.

Mas afinal, por que criamos expectativas se sabemos que não controlamos o que vai acontecer?

Podemos analisar as expectativas através de várias perspectivas diferentes. Uma delas é a previsibilidade. A mente humana possui mecanismos criativos e férteis em vários âmbitos, e um deles está relacionado à defesa. Quando avaliamos uma situação e observamos os fatos, podemos tentar prever o que pode acontecer, numa tentativa de tomar melhores decisões, nos sentirmos mais bem preparados e diminuir as sensações de imprevisibilidade e insegurança.

Imagine, por exemplo, que você esteja começando um relacionamento. Naturalmente, irá observar comportamentos, falas e atitudes da outra pessoa. A partir disso, começa a construir uma imagem de como aquela relação poderá se desenvolver. Não existe necessariamente um problema nisso. Afinal, precisamos fazer previsões para tomar decisões.

O problema aparece quando aquilo que imaginamos começa a ocupar um lugar de dever, ao invés de observar aquilo que realmente está acontecendo.

Pensamentos como: “Se ele gosta de mim, vai se preocupar comigo e vai correr atrás”, “Se eu fizer isso por ela, serei amado e ela vai deixar esse compromisso para ficar comigo” ou “Depois desse presente que dei, certamente serei reconhecido”.

Perceba que, nesses casos, a expectativa deixa de ser apenas uma possibilidade e começa a funcionar como uma espécie de certeza silenciosa.

E é justamente nesses instantes, quando o que acontece na realidade não corresponde ao imaginário, que as frustrações se apresentam.

Quando a expectativa não é comunicada

Existem expectativas que nunca chegam a ser verbalizadas. Elas permanecem dentro de nós como se fossem acordos aos quais todos deveriam corresponder.

“Ele deveria perceber que estou chateado.”

“Ela deveria saber que eu precisava de ajuda.”

“Meu chefe deveria reconhecer meu esforço.”

“Eu sou gentil com todo mundo, por que ele foi tão grosseiro comigo?”

“Depois de tudo que fiz por essa pessoa, ela deveria fazer o mesmo por mim.”

Mas como alguém pode corresponder a uma expectativa que nunca conheceu?

Em muitos relacionamentos, aquilo que parece falta de consideração pode ser, em parte, uma diferença entre aquilo que uma pessoa esperava e aquilo que a outra sequer sabia que estava sendo esperado.Em muitos relacionamentos, aquilo que parece falta de consideração pode ser, em parte, uma diferença entre aquilo que uma pessoa esperava e aquilo que a outra sequer sabia que estava sendo esperado.

Isso não significa que devemos abandonar nossas necessidades, muito menos aceitar qualquer comportamento. Significa reconhecer que existe uma diferença entre ter uma necessidade, comunicá-la e esperar que o outro consiga atendê-la exatamente como imaginamos. Quando a expectativa sai do campo imaginário e passa a ser comunicada, muitos problemas podem ser evitados.

Às vezes, criamos uma espécie de contrato sem que o outro tenha participado da sua elaboração.

“Eu fiz isso por você, então esperava que você fizesse aquilo por mim.”

Note que, quando assumimos “por você”, estamos tornando nossas atitudes uma moeda de troca. Nesses casos, quando fazemos algo “para alguém”, esperamos que, em algum momento, a pessoa faça algo para nós.

Quando isso não acontece, sentimos injustiça.

Expectativa e frustração

A frustração nem sempre nasce somente do que aconteceu. Muitas vezes, ela nasce da discrepância entre o que aconteceu e aquilo que imaginávamos que aconteceria.

Duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e reagir de maneiras completamente diferentes porque chegaram até ela com expectativas diferentes.

Isso acontece porque não reagimos somente aos acontecimentos. Também reagimos ao significado que eles possuem para nós.

Se eu imaginava que seria promovido rapidamente e isso não acontece, não estou lidando apenas com a ausência da promoção. Estou também lidando com a quebra da história que havia construído sobre meu futuro profissional, percebendo que planos importantes sobre meu futuro profissional e financeiro ficarão para mais tarde.

Por isso, a questão não é simplesmente “como parar de criar expectativas?”. Isso seria praticamente impossível.

Talvez uma pergunta mais honesta e sincera seja: como criar expectativas sem transformá-las em garantias?

Podemos desejar algo, trabalhar para que aconteça, planejar e até imaginar como seria bom se acontecesse. Mas ainda precisamos reconhecer que existe uma parte da realidade incerta e incalculável.

Quando aceitamos que a realidade é imprevisível, podemos compreender como lidamos com isso juntamente das nossas expectativas. Temos desejos, planos e objetivos e faremos o que estiver dentro do nosso alcance para isso, lidando com a imprevisibilidade e as incertezas que aparecerem no trajeto.

Desejar não é controlar

Duas palavras podem mudar muito a forma como encaramos as coisas:

“Quero” e “Preciso”

Quero = desejo

Preciso = necessidade e dependência

Essa diferença pode parecer pequena, mas altera significativamente como lidamos com aquilo que acontece.

Você pode entrar em um relacionamento desejando que ele seja duradouro. Pode começar um trabalho desejando crescer profissionalmente. Pode planejar uma viagem esperando que seja incrível. Pode mandar uma mensagem esperando determinada resposta.

Tudo isso faz parte das nossas vontades. É humano termos desejos.

O cuidado está em não transformar esses desejos em necessidade e dependência.

“Preciso que meu chefe me promova logo.”

“Preciso fazer essa pessoa me reconhecer.”

Quando transformamos o “quero” em “preciso”, aquilo que antes era uma possibilidade passa a parecer uma condição para que possamos ficar bem. Portanto o desafio é justamente em continuar desejando sem transformar o desejo em uma obrigação para a realidade.

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