De acordo com o dicionário, a palavra desalento significa falta de ânimo, esperança ou um desânimo profundo. Todas as pessoas, eventualmente, passam por momentos de desalento. Porém, o que ele, de fato, nos apresenta?
Por muitas vezes, a racionalidade parece lidar com o mundo de forma concreta, transparente e exata. Seguindo essa forma de pensar, podemos traçar planos, buscar novos comportamentos, alcançar objetivos, nos planejar e assim por diante. Porém, assim como nossos olhos, que olham para frente e buscam aquilo que desejamos, esquecemos das nossas costas. E, se não forem consideradas, elas poderão ser sobrecarregadas por um peso que não conseguimos perceber.
Fazemos isso costumeiramente. No processo de autoconhecimento, passamos a observar nossos limites: quanto aguentamos em cada situação, o que conseguimos ou não tolerar e por quanto tempo podemos permanecer em situações desgastantes e desconfortáveis. Muitas vezes, somos avisados sobre esses limites pelos sintomas que emergem, exigindo nossa atenção.
As metas estabelecidas e a autocobrança para alcançá-las desconsideram aspectos humanos. Trabalhamos arduamente para sermos pessoas realizadas financeiramente, agradáveis, saudáveis, produtivas e sempre tranquilas. Porém, a que custo isso é alcançado? E, principalmente, como isso é alcançado por cada pessoa, dentro de seu próprio contexto e de suas particularidades?
É nesse ponto que podemos pensar nas questões sociais que atravessam todos que vivem no século XXI. As contribuições de Byung-Chul Han, especialmente em Sociedade do Cansaço, onde o filósofo descreve uma sociedade marcada pelo excesso de produtividade, na qual o indivíduo deixa de ser apenas submetido a cobranças externas e passa a cobrar a si mesmo. Não é mais necessário que alguém diga constantemente “você precisa produzir”; nós mesmos incorporamos essa exigência.
Nesse contexto, até mesmo o descanso pode adquirir um tom produtivo. Descansamos para voltar a produzir. Praticamos exercícios para melhorar nosso desempenho. Organizamos nossa rotina para sermos mais eficientes. Buscamos hobbies, cursos e atividades que deveriam proporcionar prazer, mas que, pouco a pouco, também podem ser transformados em tarefas a serem cumpridas, caindo sempre na relação final de produtividade, na qual o objetivo final é ser produtivo.
O ócio, por sua vez, passa a ser visto quase como um desperdício de tempo. Permanecer sem fazer nada passa a provocar culpa, ansiedade ou a sensação de que deveríamos estar aproveitando aquele tempo de alguma maneira. Como consequência, podemos perder a capacidade de simplesmente desfrutar de uma experiência sem que ela necessariamente gere algum resultado. A mente passa a acreditar que fazer uma atividade simplesmente por fazer é perda de tempo e desperdício de vida.
Retomo a analogia feita a respeito das costas, percebendo a relação importante entre essa lógica e o desalento. Quando organizamos nossa vida apenas em torno daquilo que precisa ser alcançado, podemos nos tornar muito eficientes em avançar com nossas metas, mas pouco atentos ao que acontece conosco nesse movimento de avanço impetuoso em direção à produtividade. E aquilo que deixamos para trás continua existindo, pesando em nossas costas: cansaço, frustrações, necessidades, desejos, limites e experiências que não foram elaboradas.
O desalento pode surgir justamente nesse intervalo entre aquilo que esperávamos ser e aquilo que nosso limite consegue sustentar.
Ele não necessariamente significa que precisamos desistir dos nossos objetivos, muito menos deixar de fazer nosso melhor, mas sim reconhecermos que, em alguns momentos, será necessário olhar para aquilo que a busca incessante por resultados não permitiu enxergar.
Porque nem sempre o problema está em não conseguir chegar onde desejamos. Às vezes, está em perceber que passamos tanto tempo tentando chegar lá que já não sabemos mais por que estávamos indo.